Política

Área Mínima de Lotes em Cuiabá: O Projeto que Pode Mudar o Mercado Imobiliário e o Acesso à Moradia

A Câmara Municipal de Cuiabá analisa um projeto de lei complementar que propõe proibir a criação de novos lotes com menos de 200 metros quadrados dentro do perímetro urbano da capital mato-grossense. A proposta, enviada pelo prefeito Abilio Brunini, já conta com a simpatia da presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Redação, e avança no processo legislativo com boa perspectiva de aprovação. Este artigo examina o que está em jogo, os argumentos que sustentam a medida e as tensões que ela desperta, especialmente em relação ao acesso à moradia para as famílias de menor renda.

O que propõe o projeto e por que ele importa

Estabelecer um tamanho mínimo obrigatório para novos lotes urbanos é uma decisão com consequências que vão muito além da regulação técnica. Trata-se de uma escolha de modelo de cidade. Ao fixar 200 metros quadrados como piso para o parcelamento do solo, a gestão municipal de Cuiabá sinaliza que pretende coibir a proliferação de lotes excessivamente pequenos, que muitas vezes resultam em habitações precárias, com pouco espaço para circulação, ventilação e qualidade de vida.

O argumento central da prefeitura é o da dignidade urbanística. Lotes muito pequenos tendem a gerar construções comprimidas, sem recuos adequados, que comprometem o conforto ambiental e a salubridade do entorno. Em cidades que cresceram sem planejamento rigoroso, esse padrão contribuiu para a formação de áreas densas e desorganizadas, com problemas sérios de infraestrutura e mobilidade.

Nesse sentido, a iniciativa se alinha a uma tendência de gestões municipais que buscam retomar o controle sobre a expansão urbana antes que ela se consolide de forma desordenada.

O ponto sensível: habitação social e Minha Casa Minha Vida

O debate, porém, não é simples. A principal tensão que o projeto provoca está na relação entre padrão urbanístico e acesso à moradia. Programas habitacionais voltados à população de baixa renda, como o Minha Casa Minha Vida, frequentemente trabalham com lotes menores para viabilizar economicamente os empreendimentos. Quando a legislação municipal impõe um tamanho mínimo mais elevado, o custo por unidade tende a subir, o que pode reduzir o número de famílias atendidas ou inviabilizar determinados projetos.

Esse é um dilema real e merece ser tratado com seriedade. Garantir padrões mínimos de urbanização é legítimo e necessário. Mas fazê-lo sem considerar o impacto sobre programas sociais pode resultar em uma política que exclui, na prática, justamente as pessoas que mais precisam de moradia adequada.

A prefeitura indica que projetos já protocolados ou aprovados antes da entrada em vigor da lei não serão afetados, e que soluções específicas poderão ser adotadas no âmbito da habitação social e da regularização fundiária. Essa ressalva é relevante, mas ainda insuficiente como resposta a um questionamento estrutural sobre os efeitos da medida no longo prazo.

A dimensão política do debate

Outro aspecto que chama atenção é o perfil institucional do processo. A presidente da comissão responsável por emitir o parecer sobre o projeto é a vereadora Samantha Iris, que também é esposa do prefeito proponente. Esse fato, por si só, não invalida juridicamente o trâmite, mas acende um sinal de alerta quanto à independência do processo deliberativo. Em uma democracia funcional, a aparência de isenção importa tanto quanto a isenção efetiva.

A legitimidade de uma proposta urbanística relevante se fortalece quando passa por debate amplo, com participação de técnicos, movimentos de moradia, setor imobiliário e representantes das comunidades diretamente afetadas. O risco de aprovar uma lei de impacto significativo sem esse processo é transformá-la em alvo fácil de questionamentos futuros.

Regulação urbana exige equilíbrio e visão de longo prazo

Ordenar o crescimento das cidades é uma responsabilidade inadiável. Cuiabá, como tantas outras capitais brasileiras, carrega o legado de décadas de urbanização sem controle suficiente, e pagar esse preço no presente é muito mais caro do que prevenir no futuro. Nesse aspecto, a intenção por trás do projeto é correta.

O que a gestão municipal precisa demonstrar, contudo, é que a proteção do padrão urbanístico e a garantia do direito à moradia não são objetivos mutuamente excludentes. A qualidade das cidades se mede não apenas pelo tamanho dos lotes, mas pela capacidade de acolher sua população com dignidade real, independentemente da faixa de renda.

Autor: Sergey Semyonov

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