Pesquisadores de Mato Grosso avançam na corrida por bioinsumos feitos com microrganismos do próprio Estado

Pesquisa desenvolvida no Estado aposta na biodiversidade local para criar alternativas mais sustentáveis e eficientes para o campo.
Uma nova frente de pesquisa começa a ganhar corpo em Mato Grosso e coloca Cuiabá no centro de um debate que combina ciência, tecnologia e agronegócio: a busca por bactérias e fungos nativos capazes de reduzir a dependência de insumos químicos na lavoura. Levantamento conduzido por veículo de Mato Grosso mapeou pesquisas em andamento na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e na Embrapa que buscam transformar a biodiversidade do Estado em produtos biológicos comercializáveis, os chamados bioinsumos.
Uma nova fronteira econômica dentro do solo mato-grossense
Bactérias capazes de liberar fósforo preso no solo, fungos que atacam insetos prejudiciais às lavouras e microrganismos que podem proteger plantas de doenças começam a colocar a biodiversidade de Mato Grosso dentro de uma nova fronteira econômica: a produção de bioinsumos. Segundo o levantamento, o potencial está literalmente no solo, já que Mato Grosso reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal em seus 903 mil quilômetros quadrados e possui ambientes submetidos a condições muito diferentes de temperatura, umidade, solos e disponibilidade de água. Essa diversidade também significa uma enorme variedade de microrganismos ainda pouco conhecida e com potencial para aplicações agrícolas.
A relevância do tema para a capital e para o Estado é direta. Mato Grosso figura entre os maiores produtores agrícolas do país, e qualquer tecnologia capaz de reduzir custos com fertilizantes e defensivos químicos tem potencial de gerar impacto econômico expressivo, tanto para grandes produtores quanto para a agricultura familiar do entorno de Cuiabá.
O que estão pesquisando na UFMT
Um dos projetos mapeados na Universidade Federal de Mato Grosso, instituição sediada em Cuiabá, avança na produção de organismos com dupla função agrícola. Na UFMT, um projeto desenvolvido no Vale do Rio Cuiabá trabalhou na produção de bioinsumos à base de bactérias promotoras de crescimento e fungos entomopatogênicos, com proposta que incluiu a multiplicação dos organismos em biorreator para uso pela agricultura familiar. A iniciativa mira diretamente pequenos produtores da região metropolitana, um público que costuma ter acesso mais limitado a tecnologias de ponta desenvolvidas para grandes lavouras.
Outra linha de pesquisa recente da mesma universidade explora uma alternativa para baratear a fabricação em escala de um dos organismos mais usados no controle biológico de doenças agrícolas. Um projeto da universidade, registrado em 2026, avalia o uso de resíduos agrícolas como substrato para produzir em escala o fungo Trichoderma harzianum, organismo utilizado no controle biológico, com a finalidade declarada de reduzir o custo de fabricação de bioinsumos. O Trichoderma harzianum já é amplamente estudado em centros de pesquisa do país, incluindo a própria Embrapa, que vem desenvolvendo técnicas de produção mais resistentes e duradouras para esse tipo de fungo.
Unemat e Embrapa também na disputa
A Unemat, com atuação forte no interior do Estado, segue por um caminho tecnológico diferente. Uma pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso avança no desenvolvimento de bioinsumos líquidos e nanoencapsulados, produzidos a partir de fungos endofíticos para controle de insetos-praga das commodities agrícolas do Estado, com financiamento de R$ 146,3 mil. O uso de nanoencapsulamento é considerado uma tecnologia relativamente recente na área de defensivos biológicos, por permitir maior estabilidade e liberação controlada do princípio ativo no campo.
Já a Embrapa, com unidade em Sinop, tem concentrado esforços na análise de comunidades microbianas do solo típicas da transição entre biomas. Na Embrapa Agrossilvipastoril, instalada em Sinop, pesquisas realizadas na transição entre Cerrado e Amazônia já avaliaram comunidades bacterianas do solo e prospectaram microrganismos com capacidade de combater fitopatógenos e solubilizar fosfato. A solubilização é especialmente relevante para a agricultura, já que parte do fósforo aplicado como fertilizante fica retida no solo em formas que as plantas não conseguem absorver, o que representa desperdício de insumo e custo extra para o produtor.
Um mercado em expansão no Brasil
O momento é favorável para esse tipo de tecnologia em todo o país. O Ministério da Agricultura encerrou 2025 com 162 novos bioinsumos registrados, o maior número da série histórica, e o governo considera os produtos biológicos uma das principais frentes tecnológicas da agricultura brasileira. A Embrapa mantém uma carteira específica de pesquisa para ampliar o uso de ativos biológicos em controle de pragas, promoção do crescimento vegetal e fornecimento de nutrientes, com o objetivo de diminuir a dependência de fertilizantes de origem não renovável em culturas como soja, milho, algodão e pastagens, de grande peso econômico em Mato Grosso.
O desafio de reter valor dentro do Estado
Apesar do avanço científico, um ponto de atenção aparece com destaque nas análises sobre o setor: nem sempre a descoberta feita em território mato-grossense se traduz em benefício econômico direto para o Estado. O que ainda precisa ser medido é quanto dessa nova indústria está sendo gerada dentro de Mato Grosso, já que localizar um microrganismo no Estado não significa necessariamente que a indústria, a patente ou o produto final permanecerão ali. Essa lacuna é descrita como a parte menos visível da corrida pela biodiversidade, e reforça a importância de políticas locais de incentivo à pesquisa aplicada e ao registro de patentes vinculadas às universidades e centros de pesquisa sediados em Cuiabá e no restante do Estado.
Para o setor produtivo da região metropolitana de Cuiabá, o desenrolar dessas pesquisas pode significar, nos próximos anos, acesso a insumos biológicos mais baratos e adaptados às condições específicas do solo local, reduzindo a dependência de produtos químicos importados ou produzidos fora do Estado.
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