Tecnologia

Cuiabá vai instalar câmeras nas salas de aula com sistema que analisa atenção e comportamento dos alunos

Ampliação do programa Aluno Presente foi anunciada pelo prefeito Abilio Brunini; tecnologia de reconhecimento facial hoje controla frequência nas entradas das escolas municipais

O monitoramento eletrônico das escolas municipais de Cuiabá deve deixar os portões e corredores para chegar ao ambiente mais sensível da rotina escolar: a sala de aula. Além de reconhecer estudantes, profissionais e pessoas que não pertencem às unidades, a tecnologia deverá analisar o comportamento dos alunos durante as aulas, inclusive identificando se estão ou não prestando atenção. A proposta amplia o uso de inteligência artificial na rede pública da capital e levanta dúvidas entre pais e especialistas sobre privacidade e uso de dados de crianças. JBNEWS

A ampliação foi anunciada pelo prefeito Abilio Brunini durante a apresentação, na segunda-feira (21), do balanço da Educação municipal. Até agora, a Prefeitura não detalhou prazos nem custos da nova etapa, o que torna o acompanhamento do tema ainda mais relevante para as famílias com filhos matriculados na rede. A seguir, entenda como o sistema funciona hoje, o que deve mudar e quais pontos seguem sem resposta. JBNEWS

Como funciona hoje o programa Aluno Presente

A base do novo projeto já está em operação nas escolas. O programa Aluno Presente foi implantado inicialmente com câmeras inteligentes nas entradas e saídas das escolas e creches e utiliza reconhecimento facial para identificar estudantes e registrar automaticamente a frequência. Segundo o prefeito, o sistema também reconhece os profissionais de cada unidade e emite alerta quando alguém que não pertence à comunidade escolar tenta entrar. JBNEWS

A capacidade técnica dos equipamentos chama atenção. O programa foi lançado para alcançar as 172 unidades das zonas urbana e rural, e, conforme informações divulgadas pela Prefeitura no início da implantação, as câmeras posicionadas nos acessos conseguem autenticar até 40 rostos por segundo. Isso permite registrar a entrada de turmas inteiras em poucos instantes, sem a necessidade de chamada manual. JBNEWS

Os dados coletados já alimentam a gestão pedagógica. A plataforma permite visualizar a presença por escola, turno, turma, dia e aluno, identificar padrões de ausência e apontar estudantes com três faltas consecutivas, informação que pode subsidiar o acionamento do Conselho Tutelar, da assistência escolar e da unidade de saúde da família, numa tentativa de antecipar casos de abandono ou evasão escolar. JBNEWSJBNEWS

Além disso, o sistema foi integrado a outros setores da escola. No refeitório, a presença registrada na entrada pode ser usada para estimar a quantidade de refeições necessárias; os responsáveis podem receber informações sobre a entrada e a saída dos filhos, e os professores podem corrigir o sistema quando o registro eletrônico não corresponder à presença real do estudante. JBNEWS

O que muda com as câmeras dentro das salas

A nova fase leva os equipamentos para o espaço onde as aulas acontecem. De acordo com o prefeito, todas as câmeras atuais estão no ambiente externo, e a próxima etapa prevê que cada sala de aula também tenha os dispositivos instalados. Com isso, o monitoramento deixa de se limitar ao controle de acesso e passa a acompanhar o cotidiano pedagógico.

O ponto mais inovador, e também o mais debatido, é a análise comportamental. Paralelamente à instalação dos equipamentos, a administração trabalha na implantação de um novo sistema, que o prefeito citou como desenvolvido em parceria com o “Montessori”, sem detalhar a natureza dessa parceria. Sobre a ferramenta, Abilio afirmou: “Vai saber se aquele aluno está prestando atenção, se não está prestando atenção”. JBNEWSJBNEWS

A Prefeitura também relaciona a tecnologia ao apoio a estudantes com necessidades específicas. Segundo o prefeito, as câmeras poderão ajudar os profissionais a identificar crianças que precisam de atenção especial. A iniciativa se conecta à equipe de psicólogos que a Secretaria Municipal de Educação prepara para atuar na rede, com a função de identificar fatores emocionais, sociais e comportamentais que possam interferir no desempenho escolar. JBNEWS

A ideia de levar câmeras para as salas, no entanto, não é nova na gestão. Em fevereiro de 2025, no início do mandato, Abilio já havia anunciado a intenção de instalar equipamentos nos pátios e nas salas das escolas e creches, relacionando a medida à prevenção de bullying, agressões e outros episódios de violência contra crianças. O que muda agora é a inclusão de uma camada de inteligência artificial voltada à interpretação do comportamento. JBNEWS

Privacidade, LGPD e perguntas ainda sem resposta

O uso de biometria em crianças coloca o projeto em terreno delicado do ponto de vista legal. Pela Lei Geral de Proteção de Dados, informação biométrica vinculada a uma pessoa é classificada como dado pessoal sensível, e, no caso de crianças e adolescentes, a LGPD determina que o tratamento dos dados observe o melhor interesse desse público. Na prática, isso exige justificativas claras e cuidados adicionais por parte do poder público. JBNEWS

Os órgãos federais também já sinalizaram limites para esse tipo de tecnologia. Documentos técnicos da ANPD apontam que sistemas de vigilância e monitoramento associados à automação devem respeitar a privacidade e não podem ser usados de forma indiscriminada, considerando necessidade, proporcionalidade e alternativas menos invasivas. Por outro lado, quando lançou o Aluno Presente, a Prefeitura informou que o sistema gera metadados no processamento das imagens e declarou que a operação observa a LGPD. JBNEWSJBNEWS

O acesso às imagens já foi alvo de disputa na cidade. Em novembro de 2025, a Câmara de Cuiabá manteve veto do prefeito a um dispositivo que permitiria a pais e responsáveis acessar as imagens das câmeras das escolas em tempo real, sob o argumento de que a transmissão poderia atingir a privacidade de alunos e profissionais. Com isso, o controle das gravações permaneceu nas mãos da administração municipal. JBNEWS

Para as famílias, várias dúvidas seguem em aberto. A administração ainda não detalhou publicamente o prazo para instalação das câmeras em todas as salas, o custo da expansão, o período de armazenamento das imagens, os critérios usados pelo sistema para classificar atenção ou comportamento, quem terá acesso às análises e quais protocolos serão adotados quando a tecnologia apontar uma situação que demande acompanhamento. Até que essas respostas sejam apresentadas, pais e responsáveis podem buscar informações diretamente na Secretaria Municipal de Educação ou nas direções das unidades escolares. JBNEWS

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